Como posso eu, olhando para o
mundo religioso,
identificar a Igreja de Cristo?
Esta é uma pergunta que merece uma resposta bem concreta.
Frequentemente se pensa na Igreja como uma instituição.
As pessoas normalmente têm tendência para seguir as grandes
massas de gente, gostam de se identificar com um sistema. A isto se chama
o "pensamento de grupo".
Mas a Igreja não pode ser encarada deste modo. Igreja não
é uma denominação. Não é um titulo,
por mais sugestivo que seja, que identifica a Igreja de Cristo. Um edifício
ou uma sala, de igual modo, não é uma Igreja; serve apenas
para a albergar.
A Igreja primitiva não possuía lugares específicos
para adoração. Quando se proporcionava hora e local para
reunião, a Igreja, muito simplesmente, reunia-se e comungava do
Espírito de Deus. Faziam cultos nos lares das pessoas; trabalhavam
sem a preocupação de ter redutos próprios e não
cristalizavam num local (Actos 5.42 / 16.13).
A Igreja é como a água: podemos juntá-la num só
vaso; podemos reparti-la por vários copos; podemos vertê-la
no mar, passando a fazer parte integrante dele; pode estar em gotículas
invisíveis na atmosfera, sem deixar, por isso, de ser Igreja. Visível
em número ou dispersa, não deixa de ser o corpo do Senhor.
Ela existe pelo que os seus membros fazem e pensam. Eles representam o
Deus que os chamou e fazem a obra que Deus lhes pede que façam.
A Igreja identifica-se pelas suas obras. Para o cristão a Verdade
não é uma coisa para ser pensada; mas um caminho de vida.
O cristão não é propriamente um idealista. Em seis
pontos basilares divisemos as características da Igreja de Cristo.
1 - A Verdadeira Igreja confessa Jesus.
E faz isso nos mais insignificantes aspectos da sua vivência.
Os apóstolos viviam convencidos de que Ele era o Messias, nascido
em Belém, como vaticinara Miqueias (5.2);
de uma virgem, como predissera Isaías (7.14);
o Emanuel (Mateus 1.21-23). E para
maior confirmação, João conta como ele seria rejeitado
(João 1.11).
Mas eles não testemunhavam só verbalmente tudo isto. Eles
testificavam, pelo Espírito de Deus, o Cristo vivo e sempiterno,
através da sua acção missionária.
O evangelho de Cristo era uma incómoda mensagem para o povo daquela
época; mas era a Verdade! Apesar de polémica, os apóstolos
achavam que nada os deveria demover de a anunciarem. Essa mensagem era
central e sumamente importante. Quando intimados a desistirem dela, responderam:
"Mais importa obedecer a Deus do que aos
homens" Actos 5.29
De tal forma Cristo era o centro das suas mensagens e acção,
que em Antioquia foram pela primeira vez designados pelo título
de "cristãos" (Actos 11.26).
2 - A Verdadeira Igreja é Leal à
Verdade
Alguém afirmou: "Prefiro que me digam uma mentira que
me dê prazer do que uma verdade que me cause transtorno".
Não deve ser assim com o verdadeiro cristão!
No nosso relacionamento com os outros devemos ser verdadeiros e íntegros
(Efésios 4.25).
Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (João
14.6)
E esta verdade é indivisível, não é ambígua,
é insofismável.
Há somente duas posições a serem tomadas em relação
a ela: por ela, ou contra ela. Existem duas maneiras de estar contra ela:
rejeitando-a ou deturpando-a. (Romanos 1.18)
Talvez seja mais honesto rejeitá-la, simplesmente; do que aparentemente
a aceitar, e depois tentar adaptá-la às conveniências
pessoais.
Sabemos que o modo mais comum, desde sempre, de rebeldia contra a Verdade
divina, é exactamente este último. Por isso a apostasia grassou
como uma epidemia devastante, que só deixou desolação
e miséria na igreja.
3 - A Verdadeira Igreja é Praticante
da Palavra
"Olha para o que eu digo, não olhes
para o que eu faço", é o lema de certa casta
sacerdotal duvidosa.
Esta ideia é a invalidação e negação
dos efeitos do evangelho na vida das pessoas. O cerne do evangelho é
"arrependimento". A palavra
equivalente na língua grega, que aparece nos evangelhos é
"Metanoia", que significa:
mudança de mente, de pensamento, de índole.
Por conseguinte, arrepender-se e crer em Jesus, é passar da morte
para a vida, é a destruição da velha criatura e o
ressurgimento de uma totalmente restaurada.
Sendo assim é absurdo alguém pretender viver sem ser de
acordo com aquilo que sabe e pensa.
Segundo o apóstolo Tiago (1.22),
a verdadeira Igreja tem cristãos que praticam tudo aquilo em que
acreditam.
Cada alma que se chega a Cristo tem como imperativo primário
o novo nascimento.
Não se é cristão pelo facto de se ter nascido numa
família cristã; nem porque se aprendeu os hábitos
cristãos de conduta; ou porque se guarda a lei; ou por se ter sido
levado para o seio da Igreja.
Mas é-se cristão quando o comportamento dá testemunho
vivo de uma fé operante.
Uma pessoa não é membro de Cristo se não viver
de acordo com os princípios ensinados na Bíblia.
Em Romanos 2.13, Paulo esclarece
que as pessoas são julgadas pelo que conhecem e pela maneira como
se relacionam com aquilo que conhecem. Elas podem não saber muito
sobre a Lei de Deus, mas instintivamente conhecem a diferença entre
o certo e o errado.
Aqueles que escolhem praticar o que é certo, são aceites
por Deus (Romanos 2.14-16). Eis o princípio
basilar para a candidatura ao Reino dos Céus. Jesus demonstrou claramente
que os actos valem mais do que as palavras: (Mateus
7.21-27).
«Melhor que as "boas
acções"
são as acções boas», disse alguém.
E é certo que o comportamento do homem não deve ser determinado;
o homem é que deve determinar o seu próprio comportamento.
E o mais sensato que o homem pode fazer é cingir-se à vontade
de Deus.
4 - A Verdadeira Igreja deve Corresponder com
Amor
O distintivo dos discípulos de Cristo é o amor (João
13.35).
A Lei de Deus bipartida dá-nos o seu próprio cerne: AMOR
A DEUS e AMOR AO PRÓXIMO.
É relativamente fácil guardar os mandamentos de Deus num
sentido legalístico. O mancebo rico presumia guardar a Lei, e isso
era contestável. Ele verdadeiramente guardava-a. Somente a não
observava por amor (Mateus 19.20).
A natureza do amor vem admiravelmente descrita em 1Coríntios
13. Aí Paulo deixa decepcionados todos os que pretensiosamente
se julgam observadores da justiça. Qualquer um reconhece nesta leitura
que a abnegação, espírito de sacrifício, muita
fé, prestimosidade, e até consagração, são
de nenhum valor se o princípio motivador não for o
amor.
Quantas pessoas executam as obras mais louváveis, comportam-se
socialmente duma forma óptima, são altamente beneficentes,
filantrópicas, dedicadas, mas não actuam por amor?
Em 1João 4.20-21 é-nos
indicado o veículo para o amor completo. Ninguém pode chegar
à inteireza dos sentimentos para com Deus, se primeiro não
passar pelos sentimentos inter-humanos.
Há tantos que pretendem amar a Deus, mas não estão
dispostos a coadunar os seus sentimentos com os sentimentos divinos.
As suas relações com os irmãos não são
agradáveis:
- Acham-se cheios de censura
- Estão sempre ansiosos para ver a disciplina exercida sobre os
outros
- São incapazes de se colocar no lugar dos irmãos faltosos
- Falta-lhes o toque de bondade humana
Estas pessoas têm uma visão defeituosa do relacionamento
com Deus. Se efectivamente amassem a Deus, reflectiriam esse amor no relacionamento
com os outros.
A verdadeira igreja é amistosa e preocupa-se com o próximo,
cuida dos seus membros - exerce a presença de Deus na sua comunidade.
5 - A Verdadeira Igreja Busca um Reavivamento
As palavras que mais explicitamente definem o estado da igreja actual
encontram-se em Apocalipse 3.14-17.
O Senhor aí aponta para a última igreja da História,
que afinal somos nós.
São duras essas palavras. Mas são a verdade. Esse é
o nosso inegável e deplorável estado. Mas é imperioso
um esforço que contrarie esse estado. Carecemos de um reavivamento.
Precisamos de ânimo. Não devemos tirar o ânimo aos que
se esforçam e trabalham. Devemos incentivar aqueles que minimamente
porfiam por alcançar a vontade do Senhor. Os membros devem juntar-se
num mesmo sentimento, usando todas as acções que façam
a igreja andar para a frente, alheando-se das coisas que pertencem a esta
vida e de tudo o que os envolva demasiado.
"Pecado é tudo o que nos pode fazer
perder o gosto pelas coisas espirituais".
Descubramos na nossa vida quais são as coisas temporais que se
opõem às espirituais e tolhem o nosso progresso espiritual.
Aceitamos as bênçãos de Deus de uma forma passiva, como
se isso fosse sua obrigação. Guardamos farisaicamente os
mandamentos. Observamos regras legalisticamente. Somos compelidos a hábitos
preconcebidos. Seguimos um modelo de culto que nos foi transmitido por
tradição, somos formais em demasia. As actividades da igreja
são rotineiras e cansativas. Fazemos coisas que afinal nos parecem
correctas, sem termos o sentido dos verdadeiros valores da fé.
Mas importa mudar esse estado. Um despertamento efectivo deve ser a
intenção daqueles que pretendem desfazer a obra satânica
do adormecimento da igreja.
No Salmo 85.1-8 encontramos uma
petição feita de coração contrito, relacionada
com o reavivamento do povo de Deus.
O salmista confessa os pecados do povo, agradece o perdão divino,
suplica a salvação, requer uma vivificação.
Fala da paz, mas também contrapõe a condição
indispensável de que o povo não reincida nos seus actos negativos
e que ande nos caminhos da justiça. (Apoc
2.4,14,16,20/ 3.2,16).
A igreja é totalmente dependente de um relacionamento com Deus,
que deve ser permanentemente renovado.
Se queremos saber se assim acontece connosco, façamos o teste.
Se as respostas forem todas positivas em relação à
segunda parte das perguntas, a igreja está de rastos:
- Os dirigentes da igreja actuam com fervor, segundo
o seu dom; ou são apenas profissionais de uma liturgia amorfa, trabalhando
mais por obrigação do que por devoção?
- Os membros são dedicados a Deus e ao serviço
válido, durante toda a semana, ou são meros assistentes ao
serviço litúrgico cíclico, evidenciando uma santidade
balofa, que nada tem do real sentido do evangelho?
- A igreja vai progressivamente fazendo mudanças
úteis, tentando enfrentar os renovados desafios que se lhe deparam,
ou encontra-se ligada a rituais caducos e tradições?
- A igreja é um lugar de paz e harmonia,
onde se vive um clima de tranquilidade e confiança, sentindo-se
que o Espírito de Deus está activo, ou é apenas um
centro de convívio social, frequentado por pessoas que gostam de
se inserir institucionalmente?
6 - A Verdadeira Igreja Tem de Fazer a Obra
de Deus
A vida dos membros de igreja deve ser dedicada aos propósitos
divinos.
O cristão professo deve:
- Revelar o amor de Deus
- Expor os princípios filosóficos
do reino de Deus
- Chamar ao pecado o seu nome exacto
- Definir o pecado nas suas múltiplas manifestações
- Apontar o único caminho para a redenção
do homem
As facetas mais importantes da obra da igreja resumem-se no seguinte:
- Manifestar a acção de Deus para
com a humanidade, sendo portanto o reduto da reconciliação
entre o Criador e as criaturas.
- Operar segundo as linhas que Jesus traçou,
preocupando-se com as ovelhas perdidas, tentando libertar os cativos do
pecado. (Marcos 16.15-16).
- Manifestar o Espírito de Cristo, sua humildade,
seu serviço, sua obra de redenção. (Filipenses
2.5-8 + João 13.4-5,12-17 + Mateus 10.38-39)
- Proclamar a mensagem angélica da última
advertência divina à humanidade. (Apocalipse
14.6-12).
Uma igreja não deve supor estar em sintonia com Deus pelo facto
de estar repleta de membros. A sua missão é apontar o caminho,
não é arranjar adeptos a troco de qualquer coisa.
É agradável haver uma grande afluência daqueles
que ouvem, porém o convite do evangelho implica mudança de
vida; e nem todos estão dispostos a fazê-lo. O caminho da
justiça é estreito, e Jesus traçou as linhas mestras
para ele.
É pois missão da igreja libertar
os cativos do pecado, usando a verdade libertadora.
Podemos ressuscitar mortos, sim!
Quem pensa que não?!
Hoje, como estamos
Com o poder que possuímos,
podemos fazê-lo
Chegar junto daqueles que
estão mortos em suas ofensas e pecados e trazê-los à
vida!...
(Efésios 5-14 e 2-1)
Manuel José Santos